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O craque e o cestinha  
Paulo Cezar Guimarães - 22/07/2003
Ilustração de Tiburcio

A história é conhecida, e até já foi contada no cinema no filme “O Jornal” (“The Paper”), de Ron Howard, com Michael Keaton, Glenn Close e Robert Duvall, entre outros (não existe página oficial em português e inglês sobre o filme, mas o site www.adorocinema.com.br mostra alguma coisa). Em uma das cenas, Bernie White (Robert Duvall) conta a Alicia Clark (Glenn Close) uma história ocorrida com um grupo de jornalistas durante a cobertura de uma Olimpíada. É mais ou menos assim:

“Um dia, saímos para jantar e escolhemos o melhor e mais sofisticado restaurante da cidade. Comemos e bebemos do bom e do melhor. Quando veio a conta, ficamos assustados. Era um valor absurdo, e não tínhamos como pagar. Discute dali, discute daqui, já estávamos preocupados com a possibilidade de o dono chamar a polícia, quando um velhinho, que estava em uma das mesas próximas, chamou o maître para conversar. Pegou um guardanapo, fez um desenho e entregou ao homem. Aquele guardanapo pagou a nossa conta. O velhinho era Pablo Picasso”.

Um desenho pagou a conta. 

Eu tenho duas grandes frustrações na vida: uma é não saber tocar piano; a outra é não saber desenhar. Aprender a tocar piano, até que tentei. Desenhar, não. É natural, nasce com a pessoa. É como jogar bem futebol. Ninguém aprende a jogar bem futebol. A pessoa nasce sabendo. Com o basquete é diferente. Um sujeito grande pode treinar bastante posicionamento e arremessos à cesta, que é possível se tornar um “cestinha” razoável.

Nesses tempos em que todo mundo é jornalista só porque escreve na Internet, todo mundo é fotógrafo só porque comprou uma máquina digital, e todo mundo é designer só porque copiou um programa de editoração, nem todo mundo é desenhista. Porque desenhar é um dom. 

Já que não aprendi a desenhar, aprendi a valorizar o trabalho dos desenhistas. Em meus tempos de repórter de O Globo, adorava ver minhas reportagens ilustradas por gente como Marcelo Monteiro, Mem de Sá, Guidacci, Rico, Hippert e Cruz. Sou amigo de muitos deles até hoje. Quando editei os jornais da Souza Cruz, usava sempre ilustrações. Não abro mão. Odeio cliparts. Parece comida congelada. Sou filho único, e gosto de tudo fresquinho. Arroz tem que ser feito na hora, e o bife tem que ser tostadinho por fora e rosadinho por dentro. Evito comer aquelas batatas prontas para fritar que vêm congeladas em sacos. Têm gosto de isopor – se é que isopor tem gosto. Batata para mim ter que ser de “verdade”. Desenho também. 

Desenhista mais ainda. Quero conhecer de perto o cara que vai desenhar para mim. Quero trocar idéias com ele. Sugerir, discutir, pedir para refazer um trabalho. Ilustrador para mim tem que saber usar um lápis, sujar a mão de guache e nanquim e ser capaz de dizer qual é a cor que nasce da mistura de 40% de cyan, 20% de amarelo, 30% de magenta e 10% de preto. Pelo menos chegar perto. 

Conheço Tiburcio há muitos anos. Sou fã dele. Do seu estilo, da sua garra, do seu jeito de ser. Eu me lembro dos tempos em que ele atravessava a Baía, de Niterói para o Rio, só para me entregar suas ilustrações em caprichadas artes-finais sempre protegidas por overlays. Quando usava lápis cera ou lápis de cor, tinha a preocupação de utilizar fixador. Um capricho só. Hoje, em tempos de correio eletrônico, recebo as ilustrações do Tiburcio via Internet. Mas não vivo sem os desenhos dele. 

Tiburcio, com certeza, não é um “cestinha”; é um “craque”. 

Paulo Cezar Guimarães é jornalista e professor das Faculdades Helio Alonso, no Rio de Janeiro. Endereço eletrônico para críticas, sugestões e envio de vírus para aqueles que não gostarem dos seus textos   pcguima@openlink.com.br  

Tiburcio é ilustrador já faz 20 anos e trabalha como free lancer há 19, você pode conhecer o seu trabalho no site Tiburcio Illustrator.