Ilustra-te
ou morra!
por
Emmanuel Fraga - 28/07/2003
Ilustração de Tiburcio
É,
pois, conveniente, para início desse artigo, lembrar que
ilustrar vem do latim illustrare,
tornar ilustre, glorificar.
Ao mesmo tempo, significa esclarecer, elucidar e
instruir. Desse verbo provém o termo illustratione,
ilustração. Esse
breve recurso à etimologia — que pode parecer pedantismo para
alguns — faz-se necessário, na medida em que pretendo
demonstrar que o verdadeiro sentido de uma ilustração é capaz
de superar com sucesso a identificação sumária e corriqueira
com uma gravura ou desenho.
Longe
de representar um papel secundário frente a um texto, uma
ilustração tem a sublime (e ingrata!) missão de servir-nos de
convite ao esclarecimento e à reflexão.
Nesse sentido, o verbo illustrare
é absolutamente reflexivo, pois aponta para o ato de ilustrar e
,simultaneamente, de ilustrar-se.
Outra
referência saborosa dessa atividade é o sentido a ela atribuída
pela religião. Em
sua significação divina, ilustração é o mesmo que inspiração.
A arte do ilustrador consiste, para os religiosos, num
estímulo ao pensamento e à própria atividade criadora, cuja
fonte encontra-se na inspiração proporcionada pelo Divino.
Na
Filosofia, por outro lado, a Ilustração representa um dos mais
importantes movimentos e períodos do pensamento ocidental
moderno: o Iluminismo. Os
filósofos desse período (séc. XVIII) defendiam que a razão
humana deveria se libertar de todos os preconceitos e superstições
e seguir em direção a um modus vivendi condizente com a modernidade.
Para pensadores como Immanuel Kant: “ o Iluminismo é a
saída do homem de sua menoridade de que ele próprio é
culpado” (A 481). Segundo
ele, somos culpados por nos deixar tutelar por professores,
jornalistas e comentadores que — intencionalmente ou não —
acabam por privar-nos do prazer de interpretar, por nós mesmos,
o mundo e os acontecimentos a nossa volta.
E, fazer isso, implicaria em abdicar da nossa liberdade:
é, portanto, um caso de vida ou morte.
Quando
vemos uma boa ilustração, devemos encará-la como um
testemunho em defesa da liberdade e da autonomia do pensamento,
pois esta ultrapassa e muito a visão particular do artista
responsável pela sua criação.
Representa, antes, como já disse, um convite à instrução,
à iluminação e — por que não? — à filosofia.
Dito
isso, não será difícil justificar o porquê de minha escolha
por essa arte em meu site
(www.filonet.pro.br).
Nos quatro cantos desse enigmático e provocante veículo
digital, é possível encontrar as ilustrações de Tiburcio e
de outros artistas nacionais.
Além do óbvio aspecto intimista proporcionado, as
ilustrações integram-se perfeitamente à fluidez necessária a
uma página da Web,
tornando-a leve e atrativa.
Como todos devem saber, estimular alunos a pensar de modo
autônomo em uma sociedade cujo modelo educacional ainda
encontra-se alicerçado na repetição a-crítica
das idéias de poucos privilegiados não é uma tarefa nada fácil.
A melhor saída, creio eu, consiste em cativar os nossos
jovens primeiramente pelo seu sentido mais desenvolvido: a visão.
Com seus olhos “presos” à tela, instigá-los a
refletir transforma-se em um prazeroso desafio. E, nesse sentido, não seria piegas dizer que uma ilustração
vale mais do que mil palavras!
PS:
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Tiburcio por esta
oportunidade. Aproveito,
também, a ocasião para parabenizá-lo pelo excelente trabalho
e dedicação prestados através de sua divertida arte. Valeu!
Emmanuel
Fraga é formado em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio
de Janeiro (UERJ) e especialista em Informática Educativa pela
Universidade Castelo Branco (UCB-RJ).
Ministra aulas de Filosofia no Ensino médio da Rede Pública,
além de fazer parte do quadro de professores do Curso de Pós-graduação
em Informática na Educação da UCB-RJ.
Nas horas vagas, gosta de ler uma boa história em
quadrinhos de super-heróis.
Tiburcio é ilustrador já faz 20 anos e
trabalha como free lancer há 19, você pode conhecer o seu
trabalho no site Tiburcio
Illustrator.
|